quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Pré-versão.

Já é certo que nunca foi possível entender o destino...
Bem que ele poderia funcionar como uma pousada, onde passaria algumas noites, sem nenhum compromisso. Ou então poderia se achegar através de moradias sólidas.
Mas o destino insiste em ser um nômade de vida aleatória e um bocado pervertido.
Sem residência fixa, ele vai e volta como uma roleta russa e sem nenhuma piedade.


"O coração, se pudesse pensar, pararia.

Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.

Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também". (Livro do desassossego)


* O destino é um eterno desagarro.